Senador não esclareceu relação com Daniel Vorcaro, os milhões destinados ao filme Dark Horse, as notas fiscais de R$ 500 mil nem a origem do dinheiro vivo no caso das rachadinhas
Há muitas respostas que o senador Flávio Bolsonaro (PL) deve ao Brasil. O candidato da extrema direita à Presidência costuma ter uma reação curiosa quando é confrontado com denúncias que o cercam ou contradições: acusa adversários, ataca o Governo Lula e se apresenta como vítima de perseguição. O que o candidato da extrema direita ainda não apresentou são explicações claras para uma sucessão de fatos documentados envolvendo seu nome.

Na quinta-feira, 6, durante entrevista ao podcast Market Makers, Flávio disse enfrentar uma “guerra psicológica” e garantiu que não há nada de errado em sua conduta. Ao comentar o caso do Banco Master, voltou a fazer acusações contra integrantes do Governo Lula sem apresentar provas. Não esclareceu, porém, os pontos centrais da relação que manteve com o banqueiro Daniel Vorcaro.
As dúvidas não se limitam a especulações sobre o futuro, como tenta sugerir o candidato. Elas surgem de mensagens, áudios, comprovantes bancários, notas fiscais e investigações oficiais. Algumas remontam ao período em que Flávio era deputado estadual no Rio de Janeiro. Outras envolvem fatos recentes e uma investigação aberta pela Polícia Federal.
Por que Flávio negou a relação com Vorcaro?
Em 13 de maio, Flávio foi questionado pelo Intercept Brasil sobre o financiamento do filme Dark Horse, produção que transforma a trajetória de Jair Bolsonaro em uma narrativa cinematográfica. “De onde você tirou essa informação? É mentira”, respondeu o senador, antes de rir e deixar o local.
Horas depois, diante da publicação de mensagens e documentos, mudou a versão e admitiu ter procurado Daniel Vorcaro em busca de dinheiro para o projeto. Flávio passou a sustentar que apenas buscava um investidor privado para um filme privado.
A explicação, no entanto, não responde à pergunta mais elementar: se a relação era legítima, por que negá-la quando foi abordado pela primeira vez?
Também permanece sem explicação o grau de proximidade revelado pelas mensagens. Em uma delas, Flávio escreveu ao banqueiro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. O candidato nunca esclareceu o que justificava esse compromisso com Vorcaro nem o que o banqueiro esperava obter ao destinar uma quantia milionária a um projeto da família Bolsonaro.
Por que filme sobre Jair Bolsonaro precisava de R$ 134 milhões?
Os documentos divulgados apontam que Flávio negociou com Vorcaro um financiamento de quase US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões na cotação daquele período. Pelo menos US$ 10,6 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 61 milhões, teriam sido efetivamente transferidos em seis operações.
Flávio confirma que pediu os recursos, mas ainda não explicou por que um filme de promoção política de seu próprio pai exigia um orçamento tão elevado, quem definiu esse valor e quais condições foram negociadas com o banqueiro.
As mensagens mostram que o candidato acompanhava a liberação das parcelas, pressionava por novos pagamentos e alertava para o risco de interrupção das filmagens. Também indicam que Vorcaro tratava os repasses como prioridade, mesmo quando o Banco Master atravessava dificuldades.
Diante dos elementos reunidos, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a Polícia Federal a abrir um inquérito para investigar o destino dos recursos. A Procuradoria-Geral da República considerou que havia elementos suficientes para uma apuração formal. Flávio não se manifestou quando a decisão foi divulgada.
Onde foram parar os R$ 61 milhões?
Um comprovante do sistema internacional Swift confirma uma transferência de US$ 2 milhões da Entre Investimentos e Participações para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas e ligado ao advogado de Eduardo Bolsonaro.
Os documentos permitem reconstruir parte do caminho do dinheiro, mas ainda não esclarecem como todo o montante foi utilizado. Flávio não detalhou quais empresas e profissionais receberam os recursos, quem controlava as contas, quais despesas foram pagas nem qual papel ele próprio exercia nas decisões financeiras.
Também não explicou por que os pagamentos passaram por uma estrutura empresarial nos Estados Unidos ligada a aliados de seu irmão. É justamente o destino desses recursos que a PF deverá investigar.
Por que Flávio visitou Vorcaro depois da prisão?
Outra contradição envolve uma visita feita por Flávio a Vorcaro depois de o banqueiro ter sido preso pela primeira vez e passar a cumprir medidas determinadas pela Justiça.
O candidato afirmou que foi ao encontro para colocar “um ponto final” na relação e saber se deveria procurar outro investidor. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, apresentou uma versão diferente: disse que Flávio visitou Vorcaro para verificar se conseguiria “o restante do dinheiro” destinado ao filme.
A diferença é fundamental. Uma versão sugere o encerramento da relação. A outra indica que o candidato continuava tentando receber recursos de um banqueiro que já estava sob investigação. Flávio nunca explicou qual das duas histórias corresponde ao que realmente aconteceu.
Que serviço jurídico custou R$ 500 mil?
As dúvidas sobre o candidato do PL não se restringem ao filme. O escritório de advocacia de Flávio recebeu R$ 500 mil da Contábil Correa, empresa ligada a um empresário que posteriormente assumiu a direção da Copenhagen Assessoria e Consultoria.
A Copenhagen recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master. Antes do pagamento feito pela Contábil Correa, o escritório de Flávio havia emitido duas notas fiscais de R$ 500 mil para a própria Copenhagen. As duas foram canceladas.
O senador afirmou ter prestado assessoria jurídica à Contábil Correa, mas não informou qual trabalho realizou para justificar o pagamento de meio milhão de reais. Questionado pela imprensa, também não detalhou o serviço. Sobre as notas canceladas, disse que a contratação da Copenhagen não avançou.
Continuam sem resposta a natureza do trabalho, sua duração, os profissionais envolvidos e os motivos que levaram à emissão de três notas de mesmo valor para empresas relacionadas em um intervalo de apenas três dias.
De onde veio tanto dinheiro vivo?
Muito antes do caso BolsoMaster, a movimentação financeira de Flávio já levantava dúvidas. Ele foi denunciado em 2020 pelo Ministério Público do Rio de Janeiro sob a acusação de comandar um esquema de recolhimento de parte dos salários de servidores de seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa.
As provas acabaram anuladas por decisões do STF e do Superior Tribunal de Justiça, e o caso foi arquivado sem que as suspeitas chegassem a ser julgadas. O encerramento do processo, no entanto, não explicou a origem do dinheiro vivo usado por Flávio e sua família.
A investigação apontou ao menos R$ 977 mil em despesas sem origem comprovada entre 2010 e 2014. Também identificou R$ 281,5 mil em depósitos em espécie feitos na conta de Flávio antes do pagamento de parcelas de imóveis.
Em outra operação, dois apartamentos comprados por R$ 310 mil foram revendidos dois anos depois por R$ 1,12 milhão, lucro de aproximadamente 260%. No mesmo dia da compra, o vendedor depositou R$ 638 mil em dinheiro vivo na própria conta, valor que não constava oficialmente na transação.
O Ministério Público ainda apontou diferença de R$ 1,6 milhão entre a receita informada pela loja de chocolates da qual Flávio era sócio e o faturamento apurado pela administração do shopping. A defesa do senador nega qualquer irregularidade e afirma que o arquivamento comprova sua honestidade. A origem dos valores, porém, permanece sem uma explicação pública detalhada.


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