Licença-maternidade, proteção aos trabalhadores, armas e negócios com investigados por fraudes expõem contradições que o candidato da extrema direita tenta encobrir
O candidato da extrema direita à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), tentou substituir explicações por ataques pessoais no debate da Band deste domingo, 18. Confrontado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre sua trajetória, seus compromissos e suas relações empresariais, o senador recorreu a provocações, agressividade, sarcasmo, negativas genéricas e mudanças de assunto. Por trás das cobranças, porém, existem votos registrados, propostas legislativas, mensagens e operações financeiras que não desaparecem com uma ironia.
As perguntas trataram de temas que afetam diretamente a população, como licença-maternidade, jornada de trabalho e segurança pública, além dos milhões negociados com Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse e das conexões empresariais com pessoas ligadas ao Careca do INSS.
Confira dez cobranças feitas pelo presidente Lula e que ficaram sem resposta de Flávio Bolsonaro.
1. Por que votou contra ampliar a licença-maternidade?
Lula perguntou por que Flávio, então deputado estadual, se opôs a dar às servidoras do Rio de Janeiro mais tempo para cuidar dos filhos. O senador mencionou a esposa e as filhas, mas não justificou seu voto.
O registro é de 2009: uma proposta apresentada por Marcelo Freixo garantia seis meses de licença-maternidade às servidoras estaduais, com possibilidade de prorrogação por mais três. Na primeira votação, o texto recebeu 45 votos favoráveis e apenas um contrário: o de Flávio Bolsonaro. O benefício ampliava o período de convivência e cuidado com os bebês nos primeiros meses de vida.
“Você não respondeu a pergunta. O que que você tem contra garantir que as mulheres tenham apenas mais dois meses para cuidar de uma criança? Por que que você votou contra?”, insistiu Lula.
A cobrança expõe a distância entre o discurso de proteção à família e uma decisão concreta contra a ampliação de um direito das mães. Falar da própria família não explica por que o candidato se opôs a esse benefício para outras mulheres.
2. Por que não trabalha pela aprovação da PEC da Segurança?
Lula cobrou de Flávio Bolsonaro apoio à proposta que amplia a integração entre União, estados e municípios na segurança pública.
A PEC 18/2025 coloca o Sistema Único de Segurança Pública na Constituição e fortalece a coordenação nacional do enfrentamento às organizações criminosas. A CCJ do Senado concluiu sua análise em 14 de outubro, mas ainda faltava a votação em plenário. A cobrança de Lula dizia respeito, portanto, ao avanço de uma proposta em tramitação.
A disputa ganhou outro componente: Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio, apresentou emenda sobre redução da maioridade penal.
O ponto que Flávio não esclareceu foi como suas promessas de combate ao crime se traduzem em apoio à integração das forças de segurança. Lula, por sua vez, vinculou a aprovação da proposta à criação do Ministério da Segurança Pública.
3. Qual é a ligação de seus negócios com o “Careca do INSS”?
Questionado sobre um escritório compartilhado com o Careca do INSS, Flávio negou o vínculo e voltou a atacar o filho de Lula. A resposta não explicou as conexões empresariais que motivaram a pergunta.
A Bravo Grafeno, empresa da qual Flávio é sócio, foi identificada no mesmo endereço cadastral de pelo menos 16 empresas ligadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. Há também uma conexão contábil: Alexandre Caetano dos Reis, que foi sócio de Antunes em uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas, presta serviços ao escritório do senador. A irmã do contador administra o escritório de Flávio.
O compartilhamento do endereço, apresentado por um representante da contabilidade como um coworking, não comprova participação nas fraudes. Mas os vínculos levaram deputados a pedir à Polícia Federal o cruzamento de informações bancárias, fiscais e societárias. Era esse conjunto de relações que exigia esclarecimento, para além de uma negativa genérica.
O contexto também importa: as fraudes em descontos associativos se expandiram durante a gestão Bolsonaro e continuaram posteriormente, até serem atingidas pela Operação Sem Desconto, em 2025. Investigações da PF e auditorias da CGU identificaram cobranças sem autorização e entidades sem estrutura para prestar os serviços oferecidos aos aposentados.
4. Qual era a verdadeira proximidade com Daniel Vorcaro?
Lula cobrou que Flávio explicasse sua relação com o ex-dono do Banco Master. O senador tentou deslocar a discussão para supostas ligações do banqueiro com integrantes do governo.
As mensagens divulgadas sobre Dark Horse, entretanto, documentaram negociações diretas e milionárias entre Flávio e Vorcaro. O candidato também admitiu ter visitado o banqueiro no fim de 2025, depois de sua primeira prisão, quando ele já usava tornozeleira eletrônica.
A visita enfraquece a tentativa de apresentar a relação como um contato distante com alguém cuja situação seria desconhecida. O presidente do próprio PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que o encontro ocorreu para buscar o restante do dinheiro destinado ao filme.
Ficou sem esclarecimento a natureza dessa proximidade: quais compromissos foram assumidos e por que o senador continuou procurando recursos de Vorcaro mesmo depois de sua prisão.
5. Onde está a prestação de contas dos milhões negociados para o filme sobre Jair Bolsonaro, o Dark Horse?
Essa foi uma das cobranças mais repetidas por Lula. Flávio disse que os recursos eram para o filme sobre Jair Bolsonaro e não detalhou os pagamentos.
Os documentos revelados pelo Intercept Brasil apontaram a negociação de quase US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época. É preciso distinguir o valor negociado do dinheiro efetivamente identificado: pelo menos seis transferências somaram US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões.
Uma perícia privada apresentada pela defesa da produtora indicou despesas de aproximadamente R$ 75 milhões, mas não trouxe a identificação completa dos beneficiários dos pagamentos nem os contratos e notas fiscais necessários à conferência dos gastos. A PF abriu investigação para rastrear os recursos e apurar possíveis irregularidades.
“Eu falei de você explicar os R$ 134 milhões e você vai falar de Bolsa Família”, observou Lula diante de uma mudança de assunto.
A questão não se resolve com a afirmação de que havia um filme. O que falta esclarecer é a origem, o percurso e a destinação dos recursos. A hipótese de uso do dinheiro para despesas de Eduardo Bolsonaro está sob investigação, sem conclusão comprovada.
6. Por que Flávio Bolsonaro atuou na defesa do policial acusado de matar a menina Ana Clara, de 5 anos?
Lula confrontou Flávio sobre sua atuação em favor de Bruno Dias Delaroli, acusado de matar Ana Clara Gomes Machado, de cinco anos, atingida por um disparo de fuzil em Niterói, em 2021.
O vínculo é concreto: Flávio integrou a defesa do policial e assinou, em 2024, um recurso ao Superior Tribunal de Justiça contra a decisão que determinou o julgamento pelo Tribunal do Júri. O caso continuava sem julgamento, com o acusado respondendo em liberdade. A atuação documentada do senador foi na defesa e na tentativa de reverter a decisão de levá-lo ao júri.
A cobrança política permaneceu: por que escolheu atuar nesse caso e como concilia essa atuação com o discurso de proteção às vítimas e de rigor contra a violência. A discussão sobre sua escolha de integrar a defesa ficou sem uma explicação que enfrentasse essa contradição.
7. Por que os Bolsonaro apoiam um projeto que retira a identificação de munições?
Flávio negou que quisesse retirar a marcação e passou a falar de armas ilegais nas fronteiras. Mas a pergunta de Lula tinha um objeto específico: o PL 3.723/2019.
A versão aprovada pela Câmara prevê eliminar exigências de identificação nas embalagens de munições e de marcação de lote e comprador nos cartuchos destinados a órgãos de segurança e outras categorias autorizadas. Esses registros ajudam a descobrir a origem de munições encontradas em cenas de crimes e a investigar desvios.
Em março de 2022, Flávio pressionou pela votação do projeto no Senado e sugeriu abandonar concessões negociadas com parlamentares contrários à flexibilização.
A pergunta que ficou sem explicação é simples: qual benefício existe em retirar um instrumento que ajuda a polícia a esclarecer crimes? Falar de fiscalização das fronteiras não explica o apoio a uma proposta que dificulta rastrear munições já comercializadas no país.
8. Como explicar o desvio de armas legais para o crime organizado?
Lula também cobrou explicações sobre o destino das armas e munições liberadas durante o governo Bolsonaro. Flávio tentou restringir a discussão ao armamento ilegal que entra pelas fronteiras, sem enfrentar os desvios a partir do mercado legal.
Esse caminho de abastecimento das facções é objeto de investigações. Em maio de 2024, por exemplo, a Polícia Federal realizou duas operações contra CACs (caçadores, atiradores desportivos e colecionadores) suspeitos de vender armas para organizações criminosas.
A expansão desse mercado ocorreu sob a flexibilização promovida por Bolsonaro. O número de CACs passou de aproximadamente 117,5 mil em 2019 para 783,4 mil em dezembro de 2022. Investigações sobre desvios mostram por que a fiscalização das compras, dos estoques e da circulação de armamentos é parte do combate ao crime organizado.
A resposta de Flávio deixou de enfrentar justamente esse percurso: uma arma adquirida legalmente pode acabar nas mãos de criminosos. A fiscalização das fronteiras é necessária, mas não substitui o controle do mercado interno nem explica as consequências do afrouxamento das regras durante o governo de seu pai.
9. O PL e o grupo de Flávio Bolsonaro vão tentar derrubar no Congresso o fim da escala 6×1, depois da eleição?
Lula perguntou se o eleitor poderia confiar que Flávio não apoiaria uma mudança para desfazer o fim da escala 6×1. Nesse ponto, o senador apresentou uma negativa. O que não explicou foi a contradição entre essa promessa e a movimentação de seus aliados.
Flávio votou remotamente a favor da redução da jornada enquanto fazia campanha no Rio Grande do Sul. Entretanto, integrantes do PL anunciaram a intenção de reapresentar em 2027 uma alternativa baseada na flexibilização da jornada e na negociação entre empregado e patrão.
A proposta está ligada a Rogério Marinho, coordenador de sua campanha e autor da PEC 12/2026, que permite pagamento por hora, com remuneração e direitos proporcionais ao tempo trabalhado.
A contradição é concreta: apoiar a conquista na votação e, simultaneamente, manter na própria base política um projeto para alterar suas garantias. Era sobre a preservação do descanso remunerado e dos direitos que o candidato precisava ser claro.
10. O modelo de Javir Milei na Argentina continua sendo a referência da extrema direita para o Brasil?
Lula cobrou que Flávio explicasse sua admiração pelo governo argentino e os efeitos que uma política semelhante teria sobre os brasileiros. O candidato voltou aos ataques ao PT, sem detalhar quais medidas de Milei pretende reproduzir ou rejeitar.
As consequências do ajuste argentino estavam nas ruas poucos dias antes do debate. Em 15 de outubro, estudantes, professores e trabalhadores participaram da quinta Marcha Federal Universitária, cobrando financiamento das instituições, recuperação salarial e cumprimento da legislação. Autoridades da Universidade de Buenos Aires estimaram perda de cerca de 30% nos salários dos professores sob Milei.
No Brasil, a proposta de Flávio de transferir as universidades do Ministério da Educação para a área de ciência e tecnologia provocou preocupação entre representantes das instituições federais. Uma das dúvidas é como preservar o financiamento, já que a educação conta com um piso constitucional que não existe da mesma forma na outra área.
“Você vai pedir a motosserra emprestada do Milei?”, perguntou Lula. Depois, insistiu: “A tesourada vai cair nas costas de quem?”.
Era essa a explicação que faltava: quais despesas seriam cortadas, quais serviços seriam afetados e quem pagaria a conta. Responder com ataques ao adversário não esclarece o destino de universidades, políticas sociais e direitos dos trabalhadores.




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