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Quando direitos deixam de ser garantidos: o que o Brasil pode aprender com as mulheres que perderam espaços conquistados
Quando direitos deixam de ser garantidos: o que o Brasil pode aprender com as mulheres que perderam espaços conquistados

A história recente de países como o Afeganistão mostra que direitos das mulheres não são necessariamente conquistas irreversíveis; quando instituições e leis deixam de protegê-los, avanços podem ser rapidamente desmontados

Durante décadas, mulheres de diferentes partes do mundo lutaram para conquistar direitos que hoje parecem básicos: estudar, trabalhar, participar da política, ocupar espaços públicos, tomar decisões sobre a própria vida e ter proteção contra diferentes formas de violência e discriminação.

Essas conquistas, entretanto, não aconteceram de forma automática e tampouco estão garantidas para sempre.

Um dos exemplos mais dramáticos está no Afeganistão.

Depois da queda do regime do Talibã em 2001, mulheres e meninas afegãs passaram a ocupar espaços que durante anos haviam sido restringidos. Houve expansão do acesso à educação, participação na vida pública e presença feminina em diferentes setores da sociedade.

Esse processo nunca significou igualdade plena. Mas representou avanços concretos.

A situação mudou radicalmente depois que o Talibã retomou o poder, em agosto de 2021.

Desde então, uma série de decretos e medidas restringiu progressivamente a presença feminina na sociedade. A ONU Mulheres registra restrições ao acesso das mulheres à educação, ao trabalho, à circulação e a espaços públicos.

Em 2025, a ONU Mulheres apontou que 78% das jovens afegãs não estavam na escola, no mercado de trabalho ou em formação profissional. A organização também registrou que as proibições à educação secundária e superior colocaram em risco o futuro de uma geração inteira de meninas.

O problema não termina na sala de aula.

As restrições também atingem a autonomia econômica. Segundo a ONU Mulheres, em 2024 apenas 24% das mulheres afegãs participavam da força de trabalho, diante de quase 90% dos homens. A organização estima ainda que a exclusão econômica das mulheres poderá custar cerca de US$ 920 milhões à economia afegã entre 2024 e 2026.

O que esse exemplo ensina?

A experiência afegã ajuda a compreender uma questão frequentemente levantada por movimentos feministas: direitos conquistados precisam também ser protegidos.

Não basta que uma sociedade reconheça determinado direito em determinado momento histórico. É necessário que existam leis, instituições e participação social capazes de impedir que esses direitos sejam posteriormente retirados.

A própria ONU Mulheres aponta que, em 2024, quase um quarto dos governos pesquisados relatou algum tipo de retrocesso nos direitos das mulheres, em um cenário mundial marcado pelo enfraquecimento de proteções legais e pelo aumento das ameaças contra defensoras dos direitos humanos.

Isso ajuda a colocar o feminismo em uma perspectiva que vai além das disputas nas redes sociais.

Independentemente da posição política ou ideológica de cada pessoa, a história demonstra que a ampliação dos direitos das mulheres não aconteceu simplesmente porque as sociedades evoluíram naturalmente. Mulheres organizaram-se, reivindicaram espaço, pressionaram governos e participaram de movimentos sociais para transformar aquilo que antes era considerado normal em direito.

E a discussão não diz respeito apenas às mulheres que vivem hoje.

Diz respeito também às próximas gerações.

Uma menina que nasce em uma sociedade na qual pode estudar, trabalhar, votar, disputar cargos públicos e escolher os rumos da própria vida pode imaginar que essas possibilidades sempre estiveram ali.

A história mostra que não.

E o Afeganistão mostra algo ainda mais importante: avanços sociais podem ser interrompidos quando direitos deixam de ser protegidos.

Por isso, defender a igualdade entre homens e mulheres não significa afirmar que todos os problemas foram resolvidos ou que todas as propostas apresentadas em nome do feminismo precisam ser aceitas sem debate.

Significa reconhecer que educação, autonomia, participação política, independência econômica e proteção contra violência são dimensões fundamentais da cidadania.

A discussão sobre feminismo, portanto, pode ser muito maior do que a disputa entre grupos políticos.

É uma discussão sobre qual sociedade queremos construir e, principalmente, sobre quais direitos estamos dispostos a considerar inegociáveis.

Porque a história de mulheres em diferentes países deixa uma lição difícil de ignorar: aquilo que uma geração conquista pode ser perdido pela seguinte quando deixa de existir proteção, participação e vigilância social.

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