Batista Pescador afirmou na Câmara que a interrupção do serviço revela problemas estruturais da saúde pública e questionou a capacidade do Estado de atender a população
A suspensão temporária das cirurgias cardíacas pediátricas congênitas eletivas na Santa Casa de Campo Grande voltou a provocar cobranças sobre a estrutura da saúde pública de Mato Grosso do Sul. Durante a sessão da Câmara Municipal de Coxim, o vereador Batista Pescador (PT) levou o assunto à tribuna e criticou a condução da política de saúde no Estado, especialmente diante da dependência da população do SUS de serviços de alta complexidade concentrados na Capital.

A Santa Casa informou oficialmente que interrompeu temporariamente os procedimentos por falta de equipe médica especializada. Dos dois cirurgiões cardíacos pediátricos que atuavam no serviço, um está afastado por motivo de saúde e a outra profissional solicitou rescisão contratual. Segundo o hospital, quatro crianças aguardavam cirurgia.
O episódio ganhou dimensão estadual porque o serviço da Santa Casa é apontado como referência para cirurgia cardíaca pediátrica pelo SUS em Mato Grosso do Sul. A interrupção obrigou os gestores da saúde a discutir alternativas para os pacientes que necessitam dos procedimentos. A Secretaria Municipal de Saúde informou que a regulação continuava funcionando, mas o Conselho Municipal de Saúde alertou para a necessidade de encontrar uma solução para o encaminhamento das crianças que precisam das cirurgias.
Vereador questiona estrutura da saúde pública
Durante seu pronunciamento, Batista Pescador afirmou que a situação não deveria ser analisada apenas como um problema administrativo da Santa Casa. Para o vereador, o episódio revela uma fragilidade mais ampla da estrutura pública de saúde do Estado.
Batista lembrou que a Santa Casa utiliza recursos públicos para manter parte de sua estrutura e questionou a capacidade do poder público de garantir atendimento adequado à população que depende exclusivamente do SUS.
O vereador também relatou uma experiência pessoal vivida no hospital no ano passado, quando acompanhou o próprio filho durante atendimento e, segundo seu relato, encontrou pacientes aguardando atendimento nos corredores.
“Eu fui testemunha ocular do que aconteceu o ano passado, quando meu filho foi para a Santa Casa, ficou no chão dos corredores. E não era só meu filho não, tinha mais de 20 pessoas nos corredores”, afirmou durante a sessão.
Batista disse ainda que o problema não poderia ser atribuído exclusivamente à atual administração e citou governos anteriores ao fazer uma crítica à ausência, segundo sua avaliação, de novos investimentos estruturantes capazes de acompanhar o crescimento populacional de Mato Grosso do Sul.
Crítica ao Governo do Estado
O vereador direcionou parte de seu pronunciamento ao atual Governo de Mato Grosso do Sul. Batista afirmou que a administração estadual estaria caminhando para uma política de terceirização e privatização da saúde pública.
“Esse aí quer privatizar a saúde pública”, declarou Batista ao se referir à atual administração estadual.
A crítica ocorre em meio a um impasse que envolve o contrato da Santa Casa com o SUS. A própria instituição afirma existir um desequilíbrio econômico-financeiro no contrato e diz que, embora pagamentos estejam sendo realizados, os recursos não seriam suficientes para garantir a sustentabilidade da estrutura, incluindo equipes, medicamentos, insumos e materiais.
O Município de Campo Grande também reconheceu a existência de um impasse contratual. Segundo o secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, o Estado participa do contrato e a discussão sobre os valores está judicializada. O Conselho Municipal de Saúde, por sua vez, aprovou uma moção de repúdio à Secretaria Estadual de Saúde após avaliar que o Estado deveria participar mais diretamente das discussões sobre a situação.
R$ 4 milhões anunciados e ainda não recebidos
Outro ponto que chama atenção na crise é o aporte emergencial de R$ 4 milhões anunciado para a Santa Casa. A previsão divulgada pelos gestores era de que R$ 3 milhões seriam destinados pelo Governo do Estado e R$ 1 milhão pela Prefeitura de Campo Grande. Entretanto, em nota publicada em 10 de setembro, a Santa Casa afirmou que, até aquele momento, os recursos ainda não haviam sido recebidos pela instituição.
A situação é relevante porque o hospital relaciona o desequilíbrio financeiro à dificuldade de manter equipes e serviços de alta complexidade.
E o interior de Mato Grosso do Sul?
A crise também levanta uma questão que interessa diretamente aos municípios do interior: o que acontece com um paciente que precisa de cirurgia cardíaca pediátrica e depende da regulação do SUS quando o principal serviço de referência deixa de realizar o procedimento?
Para municípios como Coxim e os demais integrantes da região Norte, a questão é particularmente importante porque procedimentos de alta complexidade dependem de uma rede regionalizada e da regulação do SUS.
O episódio coloca uma cobrança que vai além da disputa política: como o Governo do Estado pretende garantir atendimento às crianças que dependem do SUS, especialmente aquelas encaminhadas do interior, enquanto a Santa Casa não retoma as cirurgias? Para famílias que aguardam procedimentos de alta complexidade, a resposta precisa ser rápida, clara e efetiva.




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