Candidato à Presidência afirmou que integrantes da entidade teriam participado da disseminação da informação falsa; CNBB negou envolvimento e disse que acusação sem fatos atinge injustamente a instituição
A disputa eleitoral de 2026 ganhou um novo capítulo envolvendo religião, desinformação e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) acusou, no domingo (27), integrantes da entidade de terem ajudado o PT a disseminar a informação falsa de que ele ou sua família pretendiam retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A declaração foi feita durante uma agenda de campanha em Goiânia (GO). Flávio afirmou que o suposto boato teria sido disseminado com a participação de pessoas ligadas à CNBB, mas não apresentou provas para sustentar a acusação.
Horas depois, a CNBB divulgou uma nota de esclarecimento e negou qualquer participação na produção ou divulgação de informações falsas relacionadas às eleições.
“A Conferência repudia a produção e a utilização de informações falsas, independentemente de sua origem ou de quem possam beneficiar ou prejudicar.”
A entidade também afirmou que não integra estruturas político-partidárias, partidos ou candidaturas e que suas manifestações eleitorais decorrem de sua missão pastoral e de princípios como dignidade humana, bem comum, democracia e liberdade de consciência.
Ao responder diretamente à acusação, a CNBB afirmou que atribuir à instituição participação na produção ou disseminação de desinformação “sem fatos e provas” a atinge injustamente e concluiu: “A mentira não se combate com outra mentira.”
Projeto que originou a polêmica é de 2007
A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida ganhou força nas redes sociais depois que publicações passaram a associar Flávio Bolsonaro ou sua família a uma suposta intenção de retirar da santa o título de Padroeira do Brasil.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), porém, determinou a remoção de conteúdos que apresentassem essa informação como verdadeira. Em decisão de 25 de setembro, o ministro André Mendonça classificou como “notoriamente inverídica” a afirmação de que Flávio Bolsonaro ou integrantes de sua família teriam proposto, articulado, apoiado ou pretendido promover a retirada do título.
A origem de parte da confusão está em um projeto de lei que existiu, mas não foi apresentado por Flávio Bolsonaro.
O PL 2.623/2007 foi apresentado pelo então deputado federal Professor Victorio Galli, de Mato Grosso. A proposta pretendia alterar a legislação que estabelece o feriado de 12 de outubro, substituindo a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
Segundo a própria Câmara dos Deputados, o projeto foi arquivado em agosto de 2008.
Portanto, o projeto utilizado como referência nas publicações que deram origem à polêmica não é uma proposta apresentada por Flávio Bolsonaro e tampouco se trata de uma iniciativa legislativa atual de sua campanha.
Flávio também foi alvo de decisão judicial sobre o caso
A campanha de Flávio Bolsonaro levou o assunto à Justiça Eleitoral e pediu providências contra a disseminação das publicações.
Na sexta-feira (25), André Mendonça determinou que plataformas como X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube retirassem conteúdos que apresentassem como verdadeira a afirmação de que Flávio ou sua família pretendiam retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A decisão também determinou medidas preventivas contra a replicação do conteúdo.
No domingo (27), entretanto, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou a decisão de Mendonça em um caso específico envolvendo uma publicação do humorista Antonio Tabet.
Dino entendeu que a retirada daquela publicação exigiria presumir que a expressão utilizada pelo autor se referia diretamente a Flávio Bolsonaro e destacou a necessidade de preservar a liberdade de expressão e a liberdade religiosa no debate público.
As decisões, portanto, não significam que a Justiça tenha reconhecido como verdadeira a informação de que Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A decisão de Mendonça havia considerado essa afirmação falsa, enquanto a decisão posterior de Dino tratou da retirada de uma publicação específica e dos limites da intervenção judicial sobre manifestações políticas e religiosas.
Religião entra no centro da disputa eleitoral
O episódio ocorre em meio ao aumento da presença de temas religiosos na campanha presidencial.
A polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida transformou uma informação falsa sobre uma suposta iniciativa legislativa em um dos assuntos políticos de maior circulação nas redes sociais nos últimos dias. Ao mesmo tempo, a acusação de Flávio Bolsonaro contra a CNBB levou a entidade religiosa a se manifestar publicamente sobre sua atuação no processo eleitoral.
A CNBB afirmou que suas manifestações são orientadas por princípios públicos relacionados à dignidade humana, ao bem comum, à democracia e à liberdade de consciência, mas negou qualquer participação na elaboração ou divulgação de informações falsas.
Até o momento, não foram apresentadas provas públicas de que integrantes da CNBB tenham participado da criação ou disseminação do boato atribuído por Flávio Bolsonaro à entidade.
O caso coloca novamente no centro da campanha presidencial o debate sobre o uso de religião, redes sociais e informações falsas na disputa pelo eleitorado.



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