Hospital afirma que nome do deputado não aparece entre os responsáveis por emendas recebidas; dados oficiais citados pelo Correio do Estado também não comprovavam, até setembro, a transferência anunciada pelo parlamentar
O Hospital de Amor, referência nacional no tratamento contra o câncer em Barretos (SP), informou que não recebeu a emenda de R$ 1 milhão que o deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) afirma ter solicitado que fosse redirecionada à instituição.

A informação foi divulgada pelo Correio do Estado nesta quarta-feira (23), após o jornal consultar os relatórios anuais do próprio Hospital de Amor. Segundo a instituição, os documentos registram os recursos parlamentares efetivamente recebidos e não apontam o nome de Pollon entre os responsáveis pelas emendas destinadas ao hospital.
O episódio envolve uma emenda de R$ 1 milhão originalmente destinada a um projeto audiovisual chamado “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem”, que seria executado pela Academia Nacional de Cultura (ANC), entidade ligada à empresária Karina Ferreira da Gama, também relacionada à produção do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo informações publicadas pelo Correio do Estado, a União transferiu os R$ 1 milhão ao governo de São Paulo em dezembro de 2024. O projeto audiovisual, entretanto, não foi executado: o termo de fomento não chegou a ser assinado e o plano de trabalho não foi aprovado.
Pollon afirma que pediu mudança da destinação
Após o caso entrar no radar das investigações sobre emendas parlamentares, Pollon passou a afirmar que havia solicitado o cancelamento do empenho e o redirecionamento dos recursos para o Hospital de Amor.
Em manifestação encaminhada ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), o deputado afirmou que tomou a medida porque o projeto original não teria sido executado e que pretendia destinar o dinheiro à área da saúde.
A versão, porém, não veio acompanhada, até o momento, de comprovação pública de que os R$ 1 milhão tenham efetivamente chegado ao Hospital de Amor.
Consulta ao sistema Transferegov citada pelo Correio do Estado, atualizada até 9 de setembro, não apontava mudança na finalidade da emenda, novo plano de trabalho, devolução do dinheiro à União ou transferência para o hospital. O relatório de gestão mencionado pelo jornal indicava execução de R$ 0.
Hospital recebeu milhões em emendas, mas Pollon não aparece na relação
O Hospital de Amor informou ainda que recebeu R$ 238,7 milhões em emendas parlamentares somente em 2024, com identificação dos responsáveis pelas indicações.
O nome de Marcos Pollon não aparece entre os parlamentares relacionados aos recursos recebidos pela instituição naquele período.
O dado é relevante porque o argumento apresentado pelo deputado é justamente o de que teria redirecionado a verba para uma instituição que atende pacientes de Mato Grosso do Sul.
Caso está relacionado a investigação sobre emendas
A emenda voltou a ser mencionada no contexto da Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal em setembro e autorizada pelo ministro Flávio Dino.
A investigação apura possíveis irregularidades relacionadas à aplicação de emendas parlamentares e envolve entidades ligadas à empresária Karina Ferreira da Gama e à produção de “Dark Horse”.
Pollon foi citado na decisão judicial por ter destinado R$ 1 milhão ao projeto que seria executado em São Paulo. A menção, entretanto, não significa que o deputado tenha sido apontado como participante de eventual desvio de recursos. A investigação ainda busca esclarecer a circulação e a aplicação das verbas.
Disputa com a imprensa também chegou à Justiça
O caso ganhou ainda outro desdobramento: Pollon vem contestando judicialmente reportagens que tratam da destinação da emenda.
Em setembro, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul se manifestou em uma ação movida pelo deputado contra jornalistas e o Correio do Estado. Segundo o MPMS, as reportagens questionadas tratam de fatos relacionados ao exercício do mandato parlamentar, e não da vida privada do deputado.
Em outro episódio, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul rejeitou pedido de Pollon contra o Caarapó News relacionado a uma reportagem sobre a emenda. Segundo a decisão divulgada pelo portal, não foram identificados elementos suficientes para determinar a retirada da publicação ou conceder o direito de resposta solicitado naquele momento.
O Campo Grande News também informou que três pedidos de direito de resposta apresentados pelo deputado contra veículos que publicaram reportagens sobre o caso foram rejeitados pelo TRE-MS. Conforme a publicação, o tribunal considerou que as matérias apresentavam informações verdadeiras e contextualizadas e não atribuíram ao parlamentar participação em eventual desvio.
O que falta esclarecer
Até o momento, há duas versões sobre o destino final dos R$ 1 milhão. Pollon afirma que solicitou formalmente o redirecionamento da verba para o Hospital de Amor. O hospital, por sua vez, informou que não identificou o recebimento do recurso em seus registros apresentados ao Correio do Estado.
Os dados oficiais citados pelo jornal também não comprovavam, até 9 de setembro, a transferência para a instituição.
Assim, o ponto central que permanece sem esclarecimento público é onde está o recurso e se o redirecionamento anunciado pelo deputado foi efetivamente concluído.
A investigação conduzida pelas autoridades deverá esclarecer a movimentação da verba e eventuais responsabilidades.



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