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Guerra dos EUA afasta Irã da Copa e expõe hipocrisia da Fifa
Guerra dos EUA afasta Irã da Copa e expõe hipocrisia da Fifa

Com Irã fora após ataques que mataram Khamenei, entidade abandona neutralidade ao premiar Trump enquanto conflito ameaça legitimidade do torneio

A decisão do Irã de não participar da Copa do Mundo de 2026, anunciada nesta quarta-feira (11), não é um capricho diplomático, mas uma resposta legítima à agressão militar que ceifou a vida de seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, em ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel. Enquanto a Fifa prega “união pelo futebol”, a realidade imposta pela potência norte-americana transforma o torneio em palco de uma geopolítica excludente, em que nações soberanas são pressionadas a competir em território hostil sob a mira de quem as bombardeia.

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O Irã se classificou com mérito esportivo — foi a terceira seleção, fora as sedes, a garantir vaga na Copa, liderando grupo nas eliminatórias asiáticas. Sua exclusão de facto, portanto, não decorre de desempenho, mas de uma assimetria de poder: os EUA, como anfitriões e parte beligerante, impõem condições que tornam a participação iraniana inviável sob o ponto de vista de segurança e dignidade nacional.

Anunciada pelo ministro dos Esportes iraniano, Ahmad Donyamali, a retirada da seleção não pode ser lida como mera desistência esportiva. “Dado que este governo corrupto assassinou nosso líder, não há condições para que participemos”, declarou à televisão estatal. A fala resume o impasse: como exigir que atletas representem seu país em solo norte-americano quando Washington lidera ofensiva que dizima a cúpula política iraniana e ameaça a estabilidade regional?

Fifa sob suspeita: quando a “neutralidade” vira cumplicidade

A entidade máxima do futebol afirma acompanhar os desdobramentos “com o objetivo de ter uma Copa segura e com a participação de todos”. Contudo, suas ações revelam alinhamento preocupante. A concessão do controverso “Prêmio da Paz” a Donald Trump em dezembro — justificada por supostos esforços de cessar-fogo — soa como ironia cruel diante dos bombardeios em andamento no Golfo Pérsico. Desde a premiação, os EUA intensificaram ações militares no Irã, Venezuela e Nigéria, expondo a fragilidade do critério adotado pela Fifa.

Gianni Infantino, presidente da entidade, não apenas entregou a láurea como participou de reuniões no Salão Oval e usou publicamente um boné com os dizeres “USA 45-47”, referindo-se aos mandatos de Trump. Tal postura compromete ainda mais a já manchada credibilidade da Fifa ao transformar um órgão que deveria zelar pelo esporte em instrumento de legitimação de agendas geopolíticas unilaterais.

Cultura imposta e segurança seletiva: o “Pride Game” como símbolo

Antes mesmo da escalada bélica, Seattle havia designado a partida da Copa entre Irã e Egito, em 26 de junho, como “Pride Game”, dedicada à comunidade LGBT+, que celebra o movimento no dia 28 de junho. A decisão, tomada sem consulta às federações envolvidas, ignora que ambos os países possuem legislações e valores culturais distintos. “É uma decisão irracional que favorece um grupo em particular”, criticou Mehdi Taj, presidente da Federação Iraniana de Futebol.

No Irã, atos homossexuais podem ser punidos com a pena de morte, enquanto no Egito são passíveis de prisão. Apesar da pressão, os organizadores de Seattle mantiveram a programação LGBT+ na data, o que poderia incluir bandeiras do arco-íris durante a partida, algo proibido na Copa do Catar, por exemplo.

O episódio ilustra um padrão: a imposição de pautas ocidentais como condição universal, desrespeitando a diversidade de visões de mundo. Enquanto a FIFA defende inclusão, na prática, promove uma inclusão seletiva — que exige conformidade com valores específicos, mesmo quando isso significa desconsiderar a soberania cultural de nações participantes.

Substituições às pressas: a instabilidade como regra

Caso a desistência iraniana se confirme, a Fifa cogita indicar Iraque ou Emirados Árabes Unidos como substituto. Ambos, no entanto, também estão inseridos no turbilhão regional: o Iraque enfrenta restrições aéreas devido ao conflito, e os Emirados foram alvo de retaliações iranianas. A pressa em preencher a vaga revela mais preocupação com a estética do torneio do que com a coerência esportiva ou a segurança das delegações.

Além disso, a repescagem intercontinental, marcada para o final de março no México, ocorre em contexto de tensão logística e diplomática. Adiar o minitorneio, como solicitado pela Federação Iraquiana, seria um gesto de prudência — mas a Fifa parece priorizar cronogramas rígidos em detrimento da realidade no terreno.

Um torneio sob sombra: o que está em jogo além do futebol

A Copa de 2026 deveria celebrar o esporte, mas corre o risco de ser lembrada como o Mundial da guerra. Com os EUA como anfitriões e parte ativa do conflito, a competição perde a condição mínima de neutralidade territorial. Jogadores iranianos, caso participassem, enfrentariam não apenas adversários em campo, mas hostilidade potencial de torcidas, vigilância reforçada e riscos de segurança documentados em edições anteriores.

Embora o governo dos EUA tenha imposto restrições severas de viagem a cidadãos de diversas nações, as ordens executivas (como a Proclamação Presidencial 10998) incluem cláusulas que permitem a entrada de atletas, comissões técnicas, pessoal de apoio e familiares diretos para grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Apesar disso, já houve casos de atletas impedidos de entrar no país para disputas oficiais. Em julho de 2025, Hugo Calderano foi impedido de entrar nos Estados Unidos para disputar o torneio WTT Grand Smash em Las Vegas devido a uma visita anterior a Cuba.

Críticos ao redor do mundo já questionam a legitimidade de realizar o torneio sob tais circunstâncias. Parlamentares britânicos propuseram moção para expulsar os EUA de competições internacionais, argumentando que eventos esportivos “não devem legitimar violações do direito internacional”. Na Alemanha, dirigentes cogitam boicote. São vozes que ecoam um princípio básico: o futebol não pode ser refém de interesses geopolíticos.

O mundo em conflito

A participação de equipes de países envolvidos em conflitos bélicos na Copa do Mundo de 2026 apresenta cenários distintos, variando entre banimentos oficiais, eliminações em campo e crises diplomáticas recentes.

A seleção russa está oficialmente banida de competições da Fifa e Uefa desde 2022 devido à guerra na Ucrânia. O país não participou das eliminatórias e não estará no torneio de 2026. Surgiram relatos recentes de que a Rússia estaria organizando uma “Copa do Mundo alternativa” no mesmo período. A Ucrânia não se classificou. Os critérios para esta situação são questionáveis, pois os EUA e Israel participam do torneio, mesmo sob condenação recente por crimes de guerra ou desaprovação generalizada de suas agressões na ONU.

Israel disputou as eliminatórias da Uefa, mas não garantiu vaga direta para o Mundial. A seleção palestina teve uma campanha histórica e chegou perto da vaga, mas foi eliminada na terceira fase das eliminatórias asiáticas após um empate polêmico contra Omã em junho de 2025.

A Venezuela, que teve seu presidente sequestrado pelos EUA, não se classificou para sua primeira Copa, perdendo a vaga na repescagem para a Bolívia em setembro de 2025. Em uma das maiores surpresas das eliminatórias africanas, a Nigéria, também alvo de bombardeios dos EUA, ficou fora da Copa de 2026, marcando sua segunda ausência consecutiva.

No Sudão, a guerra civil continua provocando uma das maiores crises humanitárias do mundo. Em Mianmar, a guerra civil interna continua com fronteiras de conflito em expansão. Ainda há conflitos ativos na Somália (insurgência Al-Shabaab), Mali e leste da República Democrática do Congo.

Líbano, Paquistão e Afeganistão: Todas essas seleções foram eliminadas nas fases iniciais das qualificatórias asiáticas e não estarão nos EUA. Como um dos países-sede, os Estados Unidos têm vaga garantida automática.

O futuro do futebol em tempos de polarização

A situação do Irã na Copa de 2026 expõe uma encruzilhada para o esporte mundial. Se a Fifa mantiver sua postura de “neutralidade” superficial enquanto se alinha a potências beligerantes, perderá autoridade moral para mediar conflitos futuros. Se, por outro lado, reconhecer que contextos de guerra inviabilizam a competição justa, poderá reavaliar seus critérios — inclusive sobre a escolha de sedes.

Por ora, o que se vê é um torneio fragmentado: de um lado, a narrativa oficial de união; de outro, a realidade de nações excluídas não por mérito esportivo, mas por serem alvo de agressão militar. O Irã, ao optar pelo boicote, não abandona o futebol — denuncia que, sob ameaça, não há esporte que resista. Cabe à Fifa decidir se seguirá sendo guardiã do jogo ou cúmplice de quem o instrumentaliza.

Fonte: Vermelho

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